Juros menores, contas em ordem e investimentos em infraestrutura: a agenda econômica que falta ao Brasil


 

O Brasil tem uma característica curiosa: é um país que convive há décadas com os mesmos problemas e, ainda assim, trata cada nova crise como se fosse uma surpresa. Mudam os governos, mudam as prioridades políticas, mas algumas questões estruturais permanecem praticamente intocadas. Entre elas, duas se destacam pela capacidade de travar nosso desenvolvimento: os juros excessivamente altos e a incapacidade histórica de investir em infraestrutura.


O resultado é conhecido. O país arrecada muito, gasta muito e investe pouco onde realmente importa.


Hoje, com a taxa Selic em torno de 14,25% ao ano, o custo da dívida pública brasileira consome uma parcela gigantesca do orçamento nacional. Recursos que poderiam financiar estradas, ferrovias, escolas ou hospitais acabam sendo direcionados ao pagamento de juros. Estimativas indicam que cada ponto percentual de redução da Selic representa cerca de R$ 55 bilhões a menos em despesas financeiras anuais. Em outras palavras, juros mais baixos não são apenas uma questão de política monetária; são uma estratégia de desenvolvimento.


Se o Brasil conseguisse, ao longo dos próximos anos, reduzir gradualmente a taxa básica para patamares próximos de 7% ao ano, a economia acumulada poderia ultrapassar R$ 4 trilhões em uma década. Trata-se de um volume de recursos capaz de transformar estruturalmente o país.


Mas discutir juros é apenas parte do debate. O outro lado da equação envolve a qualidade do gasto público.


Programas sociais cumprem um papel importante em qualquer sociedade minimamente justa. O combate à pobreza é uma obrigação do Estado. No entanto, políticas sociais também precisam ser avaliadas continuamente para garantir eficiência, foco e estímulo à autonomia econômica. Transferência de renda e inclusão produtiva não são objetivos concorrentes; são complementares.


O desafio brasileiro não está em escolher entre proteção social e crescimento econômico, mas em construir políticas que façam ambas as coisas simultaneamente. Quando benefícios deixam de dialogar com qualificação profissional, inserção no mercado de trabalho e geração de oportunidades, corre-se o risco de perpetuar dependências em vez de criar caminhos para a emancipação econômica.


Uma revisão responsável de gastos correntes — preservando os mais vulneráveis e corrigindo distorções — ampliaria significativamente o espaço fiscal do país. Somada à redução estrutural dos juros, essa medida poderia liberar quase R$ 5 trilhões em dez anos.


A pergunta que surge é simples: onde investir esses recursos?


A resposta também deveria ser simples: infraestrutura.


Poucos países do mundo possuem um potencial econômico comparável ao do Brasil. Temos uma das maiores produções agropecuárias do planeta, uma base industrial forte, abundância de recursos naturais e um mercado consumidor expressivo. Ainda assim, seguimos dependentes de uma logística cara, ineficiente e excessivamente concentrada no transporte rodoviário.


Enquanto outras nações investiram pesadamente em ferrovias, hidrovias e portos, o Brasil permaneceu preso a ciclos de curto prazo, disputas políticas e entraves regulatórios. O resultado aparece no custo do frete, na competitividade da indústria e no preço final pago pelo consumidor.


Projetos estratégicos aguardam há décadas por decisões efetivas. A ampliação dos portos brasileiros, a construção do Ferroanel de São Paulo, a consolidação da Ferrovia Norte-Sul, a conclusão da FIOL, a implantação da Ferrogrão e o desenvolvimento das hidrovias Tocantins-Araguaia e Paraguai-Paraná são exemplos de obras capazes de alterar profundamente a geografia econômica nacional.


Há também projetos de grande impacto regional e nacional, como a BR-319, fundamental para a integração da Região Norte; o Trem de Alta Velocidade entre Rio de Janeiro e São Paulo; e até mesmo a Ferrovia Transcontinental, concebida para conectar o Atlântico ao Pacífico e ampliar o acesso brasileiro aos mercados internacionais.


Infraestrutura não é apenas concreto, aço e trilhos. Infraestrutura é produtividade. É redução de custos. É competitividade. É integração territorial. É geração de empregos. É crescimento econômico sustentado.


Países que enriqueceram não chegaram lá por acaso. Construíram ferrovias, portos, rodovias, sistemas logísticos eficientes e instituições capazes de planejar no longo prazo. Crescimento econômico raramente é fruto de improvisação; normalmente é consequência de investimento contínuo e escolhas difíceis.


E é justamente aí que reside o maior desafio brasileiro: escolher exige desconforto.


Reduzir juros estruturalmente demanda responsabilidade fiscal. Revisar gastos públicos exige coragem política. Priorizar investimentos de longo prazo requer renunciar a soluções imediatistas e a interesses setoriais. Nenhuma dessas decisões é simples. Mas permanecer onde estamos também tem um custo — e talvez seja o mais alto de todos.


O Brasil não sofre por falta de recursos. Sofre, sobretudo, por falta de prioridades.


A grande questão não é se temos condições de construir um país mais competitivo e desenvolvido. Temos. A pergunta que permanece é outra: por quanto tempo ainda aceitaremos adiar as decisões necessárias para fazê-lo?


Porque, no fim das contas, avançar exige desconforto. E o preço da inércia sempre acaba sendo maior do que o custo da mudança.

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