Durante a sessão plenária da American Society of Clinical Oncology (ASCO), em Chicago, a comunidade médica internacional celebrou de pé os resultados finais do estudo clínico de fase 3 RASolute 302, que estabeleceu um novo padrão global para o tratamento do câncer de pâncreas metastático. Os dados confirmaram que o daraxonrasib, um comprimido de uso diário desenvolvido pela Revolution Medicines, conseguiu dobrar a sobrevida mediana de pacientes que já não respondiam à quimioterapia convencional, saltando de 6,6 para 13,2 meses. O ensaio clínico randomizado, que envolveu 500 participantes e foi publicado no Journal of Clinical Oncology, revelou uma redução de 60% no risco de morte e uma taxa de regressão tumoral superior a 31%, apresentando ainda um índice de efeitos colaterais gravemente menor em comparação aos tratamentos tradicionais.

A comoção dos especialistas se justifica pelo fato de o câncer de pâncreas ser historicamente letal e silencioso, apresentando uma das menores taxas de sobrevida da oncologia devido à mutação da proteína RAS, que atua como um interruptor celular permanentemente ligado. Por décadas, essa estrutura molecular foi considerada intratável pela ciência por não possuir uma superfície que permitisse a fixação de medicamentos. Ao conseguir bloquear múltiplas variantes dessa mutação simultaneamente, o novo fármaco supera um obstáculo científico histórico, oferecendo ganho real de tempo e qualidade de vida para indivíduos em estágios avançados da doença, cuja sobrevida em cinco anos costuma ser de apenas 3%.

O próximo passo para a viabilização comercial do medicamento consiste na aprovação regulatória pela Food and Drug Administration (FDA) nos Estados Unidos, onde o daraxonrasib já conta com estatutos de análise prioritária e programas de aceleração de revisão. No cenário brasileiro, contudo, o horizonte de acesso à nova terapia é mais complexo e distante, dependendo inicialmente de avaliações e aprovações por órgãos como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Além disso, a incorporação no Sistema Único de Saúde (SUS) enfrenta uma severa barreira financeira de partida, diante da grande disparidade entre os valores repassados pelo governo para o tratamento atual da doença e o custo estimado de novas drogas de alta tecnologia no mercado internacional.

Fonte: G1