Um surto epidemiológico associado ao navio de cruzeiro Hondius reacendeu o debate científico sobre a cepa Andes do hantavírus, variante endêmica da Patagônia argentina e chilena que possui a característica excepcional de ser transmitida diretamente entre pessoas. Originalmente propagado pelo rato-de-cauda-longa através do contato com secreções em ambientes fechados, o patógeno costuma registrar picos de circulação silvestre impulsionados por fatores climáticos, como as chuvas intensas do fenômeno El Niño, que aumentam a oferta de alimentos e a população de roedores. Contudo, especialistas ressaltam que as dinâmicas ambientais não justificam o contágio entre humanos, o qual se manifesta de forma restrita e exige contato físico muito próximo e prolongado, diferenciando-se de vírus respiratórios altamente voláteis como a gripe ou a covid-19.
Pesquisadores descartam a ocorrência de mutações genéticas recentes que expliquem essa dinâmica de contágio, apontando que o hantavírus mantém uma estrutura historicamente estável e evolutivamente adaptada aos seus hospedeiros naturais. A principal hipótese para as cadeias de transmissão atuais reside na crescente ocupação e intervenção humana nos habitats originais desses animais, embora os mecanismos biológicos exatos que permitem a passagem do vírus de um indivíduo para outro em contextos específicos permaneçam desconhecidos. A investigação científica também enfrenta desafios complexos devido à evolução clínica agressiva da doença, que mimetiza sintomas gripais iniciais e evolui para quadros graves de insuficiência respiratória em poucas horas, reduzindo a janela de observação médica.
Diante do cenário que contabilizou 102 casos de diferentes cepas de hantavírus na Argentina no atual ciclo epidemiológico — um aumento expressivo em comparação aos 57 registros do período anterior —, equipes do Instituto Nacional de Doenças Epidemiológicas Dr. Carlos Malbrán preparam uma expedição a Ushuaia, na Terra do Fogo. O objetivo prioritário da missão é coletar amostras e estudar a população local de roedores para determinar se pertencem à espécie tradicional ou a uma subespécie isolada, mapeando seu potencial papel como reservatório ecológico. O avanço das análises laboratoriais e de campo é considerado fundamental para preencher as lacunas sobre o comportamento do patógeno e aprimorar os protocolos de vigilância sanitária na região de partida do navio.
Fonte: G1

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