Brasil corre risco de começar 2022 com duas epidemias simultâneas: COVID-19 e gripe - A Voz da Região

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quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Brasil corre risco de começar 2022 com duas epidemias simultâneas: COVID-19 e gripe

Moradores da Vila Maringá passaram por triagem logo na chegada à UBS

O Brasil corre o risco de começar o ano de 2022 com duas epidemias simultâneas, a de COVID-19 e a de gripe (influenza A). A epidemia de gripe que assola o Rio de Janeiro pode se alastrar para outras capitais e grande centros urbanos, juntamente com novos casos de infecção pelo Sars-CoV-2 – o novo coronavírus. Estes apresentam tendência de alta no longo prazo, revelou o último Boletim InfoGripe da Fiocruz, da quinta-feira (09).

Alguns fatores podem explicar o cenário de disseminação da gripe. Infectologistas apontam como causas do alastramento da doença o relaxamento das medidas restritivas contra o novo coronavírus (que também reduziram a circulação de outros vírus respiratórios, como o da gripe), a baixa cobertura vacinal contra a influenza e o grande número de pessoas vulneráveis ao vírus. A imunização contra a gripe só foi retomada no Rio nesta sexta, 10. Tinha ficado quase uma semana interrompida.

“Em função da grande circulação diária de passageiros entre os principais centros urbanos do País, especialmente a partir de Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, doenças infecciosas e, particularmente, vírus respiratórios têm uma facilidade muito grande de pular de um local para outro rapidamente”, afirmou o pesquisador Marcelo Gomes, coordenador do Boletim InfoGripe da Fiocruz.

Especialistas explicam que, ao longo de 2020, o Sars-CoV-2 dominou o cenário. Praticamente, não foram registrados casos de gripe no ano retrasado. A partir do segundo semestre de 2021, no entanto, com o avanço da vacinação contra a COVID-19, outros vírus respiratórios começaram a reaparecer. Foi o que ocorreu com o sincicial, o bocavírus e, finalmente, o influenza no mês passado.

No Rio, o vírus da gripe se espalhou rapidamente. Nas últimas três semanas foram registrados 23 mil casos na cidade, segundo a Secretaria Municipal de Saúde.

Normalmente, a gripe aparece entre os meses de abril e julho, na passagem do outono para o inverno. Na época mais fria do ano, as pessoas tendem a ficar mais próximas umas das outras e em ambientes fechados. Essas atitudes facilitam a transmissão dos vírus respiratórios. Uma epidemia de gripe às vésperas do início do verão é totalmente atípica.

“O Sars-CoV-2 deslocou a sazonalidade de todos os vírus respiratórios, um fenômeno muito intrigante, então ninguém foi exposto”, afirmou o infectologista Márcio Nehab, do Instituto Fernandes Figueira e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia. “Além disso, de 2015 para cá tivemos uma queda muito significativa dos níveis de cobertura vacinal, o que foi ainda mais agravado com a pandemia.”

Pesquisadores acreditam que o H3N2 (vírus da gripe) em circulação no Brasil veio do Hemisfério Norte, que está perto do inverno. Ao chegar, encontrou baixa cobertura vacinal e o relaxamento das medidas de prevenção. Com maior controle da COVID-19 nos últimos meses, houve queda no uso de máscaras e aumento de circulação de pessoas e aglomerações. Tudo isso facilitou a disseminação da gripe, com características epidêmicas.

Outro fator que favoreceu o avanço da gripe foi o baixo índice de imunização atingido pela campanha de vacinação deste ano. Segundo o Ministério da Saúde, menos de 80% do público-alvo (crianças, idosos e grávidas) tomou a vacina. O ideal seria que superasse 90%. No Rio, a situação foi pior. O indicador ficou abaixo de 60% dos vacináveis. Como na COVID-19, a vacinação antigripal é crucial para prevenir casos graves e complicações que levam a internações.

Para ampliar a capacidade de atendimento no Rio, a Secretaria Municipal abriu três polos de atendimento exclusivamente para gripe – mas com direito a testagem para COVID-19. Além disso, estão sendo montadas tendas ao lado das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) para tratar dos infectados. A vacinação, que havia sido suspensa por falta de doses, foi retomada na última sexta-feira.

“Não adianta esperar a epidemia chegar ao seu estado para só então reforçar a campanha de vacinação contra a gripe e os cuidados necessários”, afirmou Gomes, se referindo ao restante do País. “Ainda mais nesse período do ano em que temos muitas aglomerações em centros comerciais, mercados públicos e festas.”

Embora a gripe seja menos agressiva que a COVID-19, ela é considerada uma doença grave, relacionada a uma alta taxa de hospitalizações e mortes. Os casos graves de COVID, que chegam aos hospitais, têm uma mortalidade de 25%, contra 12% e 15% nos casos graves de influenza. Segundo a OMS, cerca de 650 mil pessoas morrem por ano no mundo vítimas de complicações relacionadas ao vírus da gripe.

“A gripe é menos letal do que a COVID-19, felizmente, mas está longe de ter uma mortalidade baixa”, frisou Gomes. “É importante mantermos o trabalho de conscientização, sobretudo com as festas de fim de ano, para evitar um cenário de entrarmos o novo ano com duas epidemias simultâneas.”

(Fonte: Estadão/Imagem: Prefeitura de Jundiaí)

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